A culpa não é só do Playstation

Foto: Divulgação – O Barça tem muita força entre os mais jovens no Brasil

Em uma loja de esportes, cercado por camisas de times de vários países, o pai tenta em vão convencer o filho a escolher uma camisa do seu clube de coração. Ele aumenta a proposta e oferece o uniforme completo. Nada feito. Matheus, de 10 anos, quer a camisa do Barcelona, e deixa a loja de azul e grena, com a 10 e o nome de Messi escrito nas costas. Não vê a hora de desfilar com as cores barcelonistas na quadra do prédio, aonde dividirá espaço com camisetas de Real Madrid, Manchester City, PSG, entre outros.

O pai, embora quisesse vê-lo empolgado com seu time, não acha que o interesse pelo Barça seja assim tão ruim. Muitos dos seus amigos têm filhos que sequer gostam de futebol, por exemplo. Pelo menos eles podem compartilhar o interesse pela equipe catalã. Outro dia, assistindo a um jogo juntos, ele questiona: “Como assim saiu o Messi? Quem é esse André Gomes?”. O filho responde: “É um português, jogava no Valência. É meia. Não é muito rápido, mas toca bem”. O pai retruca: “Como você sabe dessas coisas?”. “Eu jogo com o Barça no FIFA, papai”, responde Matheus.

Como o Nou Camp não fica logo ali, a chance de ver um jogo no estádio passava pelo clube de coração do pai, que se empolgou com a ideia. Se o moleque se interessasse, faria até o sócio torcedor. Era a última chance de converter o filho, mas o tiro saiu pela culatra.  A cancha não estava lotada, mas havia bom público. Era um clássico. Sem bandeiras, faixas, instrumentos ou qualquer tipo de ferramenta que ajudasse na festa, o estádio parecia frio. Gol do rival, silêncio absoluto. A determinação de torcida única fez com que Matheus não conhecesse a aflição dos segundos intermináveis, passando em câmera lenta, quando você se lamenta e a torcida adversária festeja.

Tudo parecia tedioso para o menino, que se empolgou mesmo com um sorvete comprado pelo pai, que o fez tirar os olhos do celular por alguns minutos. A atenção dele estava voltada para a Inglaterra. “Pai, olha esse vídeo legal que o Manchester City fez com o Gabriel Jesus e postou no Facebook”. “Filho, presta atenção no jogo”, ele retruca, mas não fica sem resposta: “É muito chato”. Na volta para casa, ouvindo o rádio no carro, escutam o relato de uma briga entre torcidas organizadas em outro ponto da cidade, numa estação de trem. “É sempre a mesma coisa. Esses caras arrumam briga nos mesmos lugares, nem é no estádio”. Matheus, no alto da sabedoria dos seus 10 anos de idade, responde: “Não faz sentido esse negócio de torcida única. Eles não brigam no estádio. Se é sempre nos mesmos lugares, por que a polícia não vai lá e prende todo mundo?”.

Foto: CNN – Os clubes europeus já conquistaram a Ásia

Matheus é um personagem fictício, mas reflete o pensamento de milhões de jovens espalhados pelo Brasil, cada vez mais seduzidos pelo futebol do Velho Continente. A globalização mudou o futebol. Os grandes clubes europeus não se limitam às fronteiras dos seus países, são marcas mundiais. Lucram com venda de camisas ao redor do mundo, direitos de transmissão que sempre se valorizam, patrocínios, comercialização de produtos, etc. Reinvestem essa receita na contratação de grandes jogadores e o ciclo continua.

Esses times não são geridos como meras equipes de futebol. São tratados como empresas de entretenimento, com um marketing agressivo em busca de novos consumidores. Bombardeiam as mídias sociais, tomam conta dos canais de TV fechada, dominam os jogos de video game, lançam diversos produtos e vendem uma ideia de inclusão, mesmo que você esteja do outro lado do planeta. O nível técnico, então, nem se discute. Um cenário bem diferente do que encontramos por essas bandas.

Foto: UEFA – Bundesliga: Estádios lotados e sem clima de teatro

Mas há algo que nenhum clube europeu pode propiciar: a experiência de assistir ao jogo in loco, o sentimento da arquibancada. Esse deveria ser o diferencial para se vender o produto, principalmente entre os mais jovens. Vivemos a “era das arenas”, algo que poderia incentivar tal crescimento. Novos estádios tendem a gerar grande interesse no público. Mas isso não adianta se as pessoas não tiverem condições financeiras de pagar pelo ingresso. Pelo país temos vários exemplos de estádios que não enchem, mas, mesmo assim, o valor dos bilhetes não diminui de preço.

A primeira preocupação de qualquer gestor deveria ser lotar o estádio. Casa cheia, além do ganho técnico, significa também crescimento no consumo, seja de alimentos, bebidas, produtos do clube ou estacionamento. Uma coisa puxa a outra, e esse ganho compensa a diminuição no valor da entrada. Perdemos a chance de seguir o modelo alemão, que usou a Copa de 2006 para aumentar o público nos estádios, mas sem perder o jeito tradicional de torcer. O resultado? A Bundesliga tem a melhor média de público do mundo, com uma atmosfera fantástica em seus campos.

Tenhamos como exemplo a Argentina. Tecnicamente com um nível parecido com o Brasileirão, mas sem as novas arenas. Mesmo assim as canchas estão cheias e pulsam, e eles sabem vender bem isso. Duvido que quando você escuta “futebol argentino” não se recorde da festa das arquibancadas, por exemplo. Se existe algo que pode rivalizar com a invasão europeia é o sentimento. Enquanto, é claro, a gestão do futebol não evoluir em terras tupiniquins. Mas esse é assunto para outro texto…

Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.