A formiga rubro-negra

Val e Bruninho vieram no pacote de reforços de 2013 e fizeram parte do grupo tricampeão da Copa do Brasil. (Foto: Gilvan de Souza / CR Flamengo)

Val e Bruninho vieram no pacote de reforços de 2013 e fizeram parte do grupo tricampeão da Copa do Brasil. (Foto: Gilvan de Souza / CR Flamengo)

Por séculos as fábulas e seus conteúdos moralizantes povoam o imaginário infanto-juvenil.

O torcedor de futebol, sobretudo o rubro-negro, é, antes de tudo, uma criança. Sonha com reis, imperadores, heróis, mitos, lendas, façanhas e um Deus. O flamenguista é uma criança monoteísta que fabrica seus próprios monstros, pesadelos e inimigos.

Jean de La Fontaine escreveu “A cigarra e a formiga” e sua mensagem era clara: Quem quiser passar bem pelo inverno, enquanto for jovem, deve aproveitar melhor o tempo. Primeiro vem o sacrifício, depois os resultados. Há tempos de trabalho e tempos de diversão.

No futebol, mecanismo emulador da vida, nem sempre esta lógica se comprova. Nosso futebol foi construído em cima da inadimplência, da ostentação, da malandragem, do trambique, do calote. Tudo para saciar o ego infantil do torcedor. Quantas vezes mídia e torcida não exaltaram uma equipe multicampeã, fazendo vistas grossas para toda estrutura podre que a executou? Brada-se contra a corrupção e pela honestidade até seu time entrar em campo e ser eliminado por um adversário “mais fraco”. Diante do vexame, para não passar novamente por ele, tudo é permitido.

Algumas peças do elenco de 2016 (Reprodução Twitter Sempre Flamengo)

Algumas peças do elenco de 2016 (Reprodução Twitter Sempre Flamengo)

No Flamengo houve o tempo de diversão, mas em 2013 chegou o tempo de trabalho. Ao longe, avistava-se um impiedoso inverno. Da dispensa de Love, passando pelas contratações de Carlos Eduardo, Elano, Éderson, Guerrero até a recente contratação de Diego, observa-se um claro movimento ascendente. Não é milagre, não é engenharia financeira. Enquanto as cigarras dançavam, as formigas trabalhavam duro. Só em 2016 o rubro-negro carioca trouxe: Muralha, Rodinei, Vaz, Réver, Juan, Donatti, Cuellar, Arão, Mancuello, Damião e Diego. Quitando seus processos trabalhistas, lançando seu programa de sócio-torcedor, pagando sua astronômica dívida, alijados de sua própria casa, entregando ao seu quase desesperado torcedor toda a sorte de jogadores, alguns muito, muito aquém do que a história rubro-negra sugeriria. O Flamengo, no seu processo de reconstrução, a despeito da conquista da Copa do Brasil de 2013 e do estadual de 2014, levou o seu torcedor ao limite; ao caos. A partir da vinda de Guerrero, no ano passado, o clube já assinalava um esboço do abandono da estratégia do encostado/lesionado/aposta/refugo que tanto assombraram sua obsessiva torcida. O elenco de 2016, executado a duras penas, é a subversão dos super-times erigidos através do calote. Já não é mais o “pobre, porém limpinho”. Enquanto as cigarras tremem de frio, as formigas cantam e dançam no inverno.

Nunca é possível antecipar os acertos táticos e técnicos. O futebol prega peças. Os craques fracassam, o desconhecido vira mito, o improvável domina, porém as intenções permanecem sob julgamento e no Flamengo elas visam à aurora dourada. Uma hora, de tanto fazer o correto, é possível que mesmo no futebol o correto se realize. Deste modo, o desafio do Flamengo não é só a vitória e o título. Ele tem algo a provar. A fábula tem uma moral: de tanto fazer o certo, o resultado virá. Acreditar nisso é o maior desafio de dirigentes, jogadores e torcida.
Resta a reflexão: Se o futebol emula a vida e o Flamengo emula o Brasil, uma vez o Flamengo dando certo, poderia o Brasil dar certo?

Diego e o messianismo rubro-negro. Todos esperam Arthur voltar e retirar Excalibur da rocha.

Diego e o messianismo rubro-negro. Todos esperam Arthur voltar e retirar Excalibur da rocha.

Só há Justiça no aleatório. E nada é mais aleatório do que o futebol. Curte futebol, bebidas, boxe, artes em geral e farofa.