Kosovo: o direito de perder, ganhar e fazer história

O futebol é uma metáfora da guerra. Parece filosofia de boteco, mas é sociologia pura. Desde a época de Norbert Elias, primeiro intelectual a estudar o esporte com bases acadêmicas e humanas, já eram apontados fatores que caracterizavam o futebol como um simulacro de violentas batalhas.

Verdade seja dita, não é difícil chegar a tal conclusão, basta atentarmos a alguns pontos: o nome de cada posição, seja o defensor, o atacante, o artilheiro, etc. O início em presumível igualdade (o monótono 0x0) e o final em possível superioridade (a catarse a cada meta invadida). Até mesmo o singelo ato de rolar a bola para a frente no ponta-pé inicial (regra agora curiosamente revogada pela FIFA) provinha de uma simbologia bélica: a primeira invasão ao território inimigo era o necessário pretexto para o começo da guerra.

Agora, no contexto de facto bélico da nossa modernidade, possui gigante relevância a guerra da Iugoslávia, o inter-étnico e sangrento conflito que deixou mazelas profundas nas sociedades dos Bálcãs e resultou em meia-dúzia de novos países: um problema de geografia para nós, tão afastados dessa parte do mundo; um grito de liberdade para milhões de outros, diretamente envolvidos na violenta história balcânica.

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A derrocada do país socialista foi a principal razão da emigração em massa de ex-iugoslavos para todo o mundo, sobretudo para regiões mais pacíficas da Europa. Não são poucos os exemplos que hoje defendem outras seleções depois de terem fugido das calamidades balcânicas (Ibrahimovic, Shaqiri, Seferovic) ou que defendem suas antigas-novas nações apesar de terem nascido alhures (Rakitic, Misimovic, Kolasinac).

Largamente foi debatido aqui sobre a imigração no caso kosovar, fugindo de uma sangrenta guerra na província outrora mais pobre da Iugoslávia e mais desconectada culturalmente dos eslavos do sul. Enquanto sérvio, croata, esloveno, macedônio e bósnio são línguas eslavas, o albanês não compartilha nenhuma característica com tais idiomas. A religião, majoritariamente muçulmana, tem afinidade apenas com os bósnios. A etnia, apenas com os albaneses, que têm seu próprio país.

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Diversos atletas de origem kosovar expressaram por anos seu apoio à causa do país que declarou independência em 2008 e tem, desde então, buscado reconhecimento internacional em várias frentes. Shaqiri, Xhaka, Behrami, Cana são alguns dos jogadores que hoje defendem outros esquadros mas que nunca esconderam seu apoio à nação de origem.

Uma vitória no âmbito esportivo foi conquistada e comemorada nas últimas semanas, quando tanto a UEFA quanto a FIFA aprovaram a FKF (Federação Kosovar de Futebol) entre suas associadas. Pode parecer trivial o direito a jogar bola, mas nesse caso reflete o direito a usar sua bandeira, cantar seu hino e ter orgulho do país que por tantas penitências passou. Mais ainda, como disse Hashim Thaci, presidente do Kosovo, “ninguém mais vai nos manter afastado dos campos”, comemorou o evidente passo adiante que a soberania do país conseguiu realizar.

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Além disso, o Kosovo recebe o “direito de ganhar e perder” – o direito de jogar. Tão afetados pela guerra, os kosovares finalmente terão o direito de participar na mais excitante das metáforas, sem medo da derrota ou da vitória. De infiltrar-se no terreno inimigo, de ter seus artilheiros, de defender sua meta, conscientes de que esse primeiro passo, lúdico e esportivo, simboliza um firme progresso em direção ao reconhecimento internacional.

Assim, o Kosovo dá o ponta-pé inicial na sua trajetória como seleção oficial. As histórias que daqui virão podem ser frustrantes ou gloriosas, decepcionantes ou fantásticas, podem ser epopeias ou tragédias, mas o mais importante é que elas sairão da imaginação de muitos para a realidade: elas serão, finalmente e sem pedir permissão a ninguém, escritas.

Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.